O Hospital Sírio-Libanês embarcou em uma jornada sustentável, reduzindo cuidadosamente os impactos de suas operações e assumindo responsabilidades a longo prazo. As questões de Responsabilidade Ambiental, Social e Corporativa (ESG) sempre foram prioridade, tanto que foi a primeira instituição de saúde carbono neutro do Brasil, no ano de 2019, reconhecida após a redução da emissão de gás carbônico em 15%.
Ser Certificado com a ISO 14001 também comprova os esforços para reduzir o impacto de sua operação no meio ambiente. A instituição incorporou, ainda, em sua estratégia os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), é signatária do Pacto Global da ONU e adere a iniciativas como Race to Zero, Science Based Targets e Acordo Ambiental São Paulo.
Neste artigo, você vai conferir como a Lean Inception, metodologia ágil criada por Paulo Caroli, foi utilizada no Hospital para aprimorar os processos de redução, tratamento e disposição de forma segura dos resíduos de serviços de saúde.
Potencializando ESG nos processos e ações: gerenciamento e redução de resíduo infectante
Durante a pandemia de Covid-19, a recomendação do Ministério da Saúde era descartar em resíduo infectante todo insumo gerado na assistência dos pacientes suspeitos/confirmados de Covid-19. Após reler a legislação RDC Nº. 222, de 28 de março de 2018, sobre Boas Práticas de Gerenciamento dos Resíduos de Serviços de Saúde, e a Portaria Nº 2.349, de 14 de setembro de 2017, sobre classificação de Risco dos Agentes Biológicos, foi verificada a oportunidade em reduzir ainda mais os resíduos infectantes na instituição.
Para isso, era necessário identificar e avaliar todo o ciclo de vida do resíduo no Hospital, desde o recebimento, unitarização, segregação, descarte e reciclagem. Nesse cenário, um levantamento indicou as principais ações a serem executadas:
– Rever o protocolo institucional sobre gerenciamento de resíduos
– Avaliar conhecimento da equipe assistencial sobre descarte de resíduos
– Treinar a equipe assistencial sobre descarte de resíduos
– Elaborar estratégias de descarte de resíduos de forma segura
– Reduzir o resíduo infectante
Uma primeira tentativa de desenvolvimento de projeto, com a participação de 6 colaboradores e reuniões quinzenais, foi realizada. Áreas envolvidas: CCIH + UTI + Desenvolvimento de Enfermagem + Sustentabilidade. O volume alto de resíduo descartado na lixeira infectante foi identificado com a dor principal e o objetivo da iniciativa era de reduzir esse resíduo infectante à beira leito.
Resultados:
- Processo lento
- Alta carga de trabalho para gerenciar as ações; prazos; testes…
- Surpresa: Muitas ações paralelas em vários setores do Hospital
- Retrabalho
- Diferentes processos
- Ausência de padronização
Para dar andamento ao projeto, o apoio de um profissional Agilista para mapeamento das expectativas e necessidades foi fundamental. A seguir, você verá por que a Lean Inception foi a metodologia ágil escolhida para a organização, além de detalhes sobre o desenvolvimento e monitoramento das ações no Hospital.
Por que a Lean Inception foi a metodologia ágil escolhida?
Um grupo maior de áreas foi envolvido na iniciativa. Diante do contexto complexo que permeia a gestão de uma equipe composta por quase 100 pessoas em um projeto de extensa duração, que teve início em julho de 2022, tornou-se imperativo estabelecer uma visão abrangente e completa de todo o processo.
O objetivo principal era garantir que o produto fosse desenvolvido de forma colaborativa, destacando as contribuições de cada área envolvida. Um cenário com várias pessoas, decisões em conjunto e alinhar entendimento, de expectativas e processos. Esse foi um dos principais motivos para a escolha da metodologia ágil Lean Inception.
Para compreender o ciclo do resíduo dentro do hospital, a jornada do resíduo e identificar as principais personas (áreas), foi necessário realizar uma análise detalhada, semelhante a um processo de pré-Lean. Essa abordagem foi essencial para mapear todos os elementos relevantes antes de reunir toda a equipe em um ambiente colaborativo. O intuito era definir os próximos passos de forma clara e construir o backlog de maneira conjunta.
Dada a complexidade das áreas envolvidas, a aplicação das atividades da Lean Inception representou o cenário ideal para otimizar o processo. A partir de encontros semanais, a Lean Inception foi escolhida, ainda, por proporcionar:
- Revisão e padronização dos processos;
- Local para debate de dores e oportunidades dos setores;
- Lembretes para os responsáveis pelos processos;
- Maior transparência;
- Participação e colaboração;
- Histórico e acompanhamento do trabalho realizado.
Essa abordagem multifuncional e colaborativa visou integrar as perspectivas de todas as áreas envolvidas, enriquecendo, assim, o planejamento e a execução das iniciativas sustentáveis.
Durante essas reuniões, diversas ações de sustentabilidade foram discutidas, contando com a participação ativa de diferentes setores, tais como Serviço de Controle de Infecção Hospitalar, Enfermagem, Educação Continuada, Sustentabilidade Ambiental, Hotelaria, Qualidade, Nutrição, Farmácia, CDH e Segurança do Trabalho.
Facilitando a Lean Inception: como foi o processo e principais desafios
A Coordenadora de Agilidade do Hospital Sírio-Libanês, Ana Clara Souza Gonçalves, ressalta que o processo de facilitação foi desafiador. Para ter um melhor entendimento do ciclo de vida do resíduo nos setores, um cenário adaptado de Lean Inception teve de ser feito: mapeamentos das jornadas de resíduos em cada setor foram feitos anteriormente com os times, desde onde é pego o material a ser utilizado, descarte, limpeza etc.
Como os times não tinham disponibilidade de permanecer o dia inteiro envolvido na facilitação da Lean Inception, outra adaptação foi realizada: encontros de segunda à sexta-feira, apenas no período da tarde. Reuniões de acompanhamento semanais também foram realizadas nas sextas-feiras, com diálogo sobre o andamento das demandas estabelecidas e interação entre os times.


Nesse cenário da Lean Inception, quatro grandes frentes de atuação – quatro grandes MVPs (Produto Mínimo Viável), em sua maioria visando à alterações de processo – foram originadas:
- Revisão de documentos e dos insumos para segregação – necessidade de haver protocolos e levantamento de todas as regulamentações;
- Revisão do consumo de plástico – necessidade de identificar onde o consumo pode ser reduzido, reestruturar processos etc;
- Conscientização dos times e uso racional dos insumos – necessidade de ampliar a consciência sobre uso não apenas por parte dos times, como também promover a conscientização de pacientes;
- Substituição de materiais por opções mais sustentáveis – necessidade de substituição de copos descartáveis, mexedores de cafés, por exemplo.
Principais entregas e resultados obtidos a partir da Lean Inception
Com o monitoramento das ações pós Lean Inception, foi possível observar que os principais Objetivos e Resultados-Chave (OKRs) definidos permanecem sendo realizados:
- Ser uma instituição mais sustentável, por meio da redução do consumo de plástico;
- Educar colaboradores para práticas mais sustentáveis;
- Melhorar a segregação de resíduos gerados;
- Melhorar a satisfação dos clientes quanto à sustentabilidade da organização.
Vale lembrar que, apesar de não ter despendido recursos, o único recurso investido foi para a impressão e plastificação de fotos para identificar lixeiras. O processo também auxiliou na uniformização de processos, andamentos de próximas ações somente a partir da conclusão de demandas anteriores.


O documento sobre gerenciamento de resíduo foi revisto pela equipe da Sustentabilidade e apoio da equipe assistencial e foram postos exemplos de descarte que melhor representa a realidade da equipe.
Uma unidade semi-intensiva foi escolhida como piloto. Foi aplicado um questionário de conhecimentos sobre descarte de resíduos. Após essa avaliação, houve um treinamento para a equipe assistencial elaboradora pelo desenvolvimento de enfermagem.
Em seguida, todos os expurgos foram readequados com identificação das lixeiras com fotos do que poderia ser descartado (por exemplo, curativo ou luva com muito sangue). Também foi construído um vídeo com exemplos de quais e como os insumos devem ser descartados na lixeira infectante, focando em risco ocupacional e controle de infecção. E por último, a lixeira infectante foi retirada do quarto.
Com isso, houve o aprimoramento de instruções quanto ao descarte adequado de resíduos gerados durante a assistência/beira leito; realização de treinamentos e divulgações sobre segregação e descarte de resíduos infectantes; novas práticas nas rotinas de troca de caixas de materiais perfurocortantes; novas identificações em lixeiras dos profissionais, pacientes e de expurgos.
Outro dado importante com o advento da utilização da metodologia ágil no processo trata da redução em si do número de resíduos infectantes gerados:

A ação de redução do resíduo infectante iniciou em 03/2019 até 03/2023, já que necessitou de mudanças para que o processo fosse seguro.
“Mesmo com as práticas de segregação adequada dos resíduos, como essas ações, conseguimos reduzir de 60.287 quilos / 11.287 paciente-dia (5,34 quilo/paciente-dia) em 2019 para 48.743/13.119 (3,71 quilo/paciente-dia) em 2023. Uma redução de 50%. Se avaliarmos o período da pandemia com os dados atuais, a redução foi acima de 50%”.
Quais os próximos passos?
De acordo com o grupo gestor, existem ainda várias ações pendentes no backlog, aguardando desenvolvimento por parte das equipes, especialmente aquelas que dependem de alocação de recursos orçamentários.
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